A arte da escutatória

Chovia, e assim como grande parte das pessoas que passam o dia – e a noite – na Praça da Sé, buscamos abrigo no metrô. Longe das catracas, homens e mulheres úmidos, recostados em trouxas formadas por pertences recolhidos às pressas, esparramavam-se pelo chão.

Demos um oi aqui, outro ali, trocamos apertos de mão.
– Vocês vão nos levar pra onde?
– Pra nenhum lugar.
– Então vocês não têm uma casa de internação pra nos levar?
– Não, não temos.
– Nenhum abrigo?
– Não.
– Eu não queria ficar aqui, estou cansado dessa vida. Dona, a senhora não tem mesmo um lugar pra mim?
– Não, não tenho. Infelizmente não tenho nenhum lugar para te levar.

Sentir-se impotente é incômodo. Dá vontade de fugir. Já fugi outras vezes, e aprendi que a impotência é mais esperta: quanto mais você tenta se livrar dela, mais ela cola em você. Então não me movi.

De um lado, pessoas passavam apressadas para seus destinos; de outro, pessoas sem destino pareciam não ter pressa alguma. Algumas, inclusive, se embebedavam de cachaça.
– Quer um gole, tia?
– Não, obrigada, isso não me faz bem.
Sem tomar nenhum gole, embriaguei-me com o gosto amargo dos meus nãos. Deixei que o amargor me encharcasse, até evaporar. Instantes depois, mais sóbria, falei:
– Pensando bem, na verdade, tenho sim um lugar para levar vocês. Tenho o meu coração. Serve?

Foi assim que aquela tarde desanimada e chuvosa começou a se transformar numa tarde delicada, calorosa, gentil.
– No seu coração? Sério mesmo? Eu quero! Acho bem melhor que internação!!!
– Cabe eu também?
– E eu, tia, cabe eu?
– E até eu?

Quantos desabrigados será que um coração pode acolher? Nas ruas, essa questão toma forma. E cheiro. Será possível acolher homens com bafo de cachaça, impregnados de fumaça de cigarro barato? Viciados, abandonados, desesperados? E mulheres molhadas de urina? Doentes, com suas feridas expostas, infeccionadas? Será possível a um coração – ainda que seja um coração grande – ceder acolhida a pessoas que já mataram outras? (“mas era ou eles ou eu, tia!”)

À medida que íamos ouvindo suas histórias, ficava claro que um único coração pode acolher o infinito. E também ficava claro que tantas histórias não cabiam em uma única tarde. Todos queriam – precisavam! – falar.

Não tínhamos lugar para levá-los, mas tínhamos um par de horas para escutá-los.

José Antonio, mais conhecido como Badarosca, chegou filosofando. Contou que, por dia, muita gente se aproximava deles, cada qual com sua oratória, tentando convertê-los a uma religião, a um modo de vida, a um modelo, a um padrão.
– De oratória estamos cheios. De gente dizendo o que devemos fazer, e como devemos ser, estamos cansados. Mas o que precisamos é de escutatória. Alguém interessado em nos ouvir, interessado em nossa história. Que não queira falar de si mesmo, que não queira nos impor suas ideias. Alguém que faça escutatória da mais pura, e mais nada. Para mim, a escutatória é uma arte. E vocês fazem essa arte.

Achei o termo escutatória brilhante. Pensei mesmo que ele o tivesse inventado naquele instante. E talvez o tenha! Mais tarde, pesquisando no Google, descobri que Rubem Alves tem um lindo texto que leva esse título. Criativo que era, deve tê-lo inventado. Mas, com todo o respeito, para mim o verdadeiro inventor da escutatória é, e sempre será, José Antonio Pereira, o Badarosca.

20180307_180256(0)

“Escutatória é arte de poder ouvir, ouvir as pessoas desconhecidas, ouvir e não dar receita pronta, apenas ouvir. Oratória todo mundo quer ter. Eu queria que os oradores parassem de falar e escutassem. Simplesmente só escutar. Entre falar e escutar eu fico com escutar.” José Antonio Pereira

20180307_180501(0)

 

 

Anúncios
Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Quase voar

Fui bombardeada. Uma saraivada de palavras me atingiu bem no meio do peito.

De que adianta vocês ficarem ai conversando, se aqui ao lado tem duas meninas morrendo? Uma de 16, uma de 17, lindas! Aquelas ali, ó. (Wilma aponta para a “Cracolândia da Sé”, a uns 20 ou 30 metros de onde estávamos). Sim, aquelas ali mesmo, se afundando no crack, os homens tudo usando elas, um horror, um inferno, elas vão morrer ali. E o que vocês vão fazer por elas? O que VOCÊ vai fazer? Ah, você não pode fazer nada, né? Não pode ir ali, né? Eu não aconselho mesmo, agora não dá pra entrar ali, mas o que você vai fazer? Vai deixar elas morrendo? São meninas! Você não entende? Me-ni-nas! Você tem que tirar elas dali, tem que internar elas!!! Sim, as assistentes sociais já vieram, e não fizeram nada. Os políticos já vieram, e não fizeram nada. Nunca fazem nada. Ninguém faz nada. Você não tem pra onde levar elas, né? Ninguém tem! Esse é o problema de vocês! Vocês conversam, conversam, conversam, e não fazem nada! Querem cuidar da mente, mas tá errado! Tem que cuidar antes do corpo, elas estão morrendo. Morrendo! Deixa a mente pra depois! Querem saber a história, por que saiu de casa, por que isso e aquilo, mas que importa isso agora, meu Deus? Tem que salvar elas! Que nem essa aí (aponta para a mulher sentada na mureta à nossa frente, com olhos muito amarelos, ela toda muito amarela, tentando sem sucesso calçar um tênis sujo em um pé inchado e cheio de feridas). Tá com os rins estragados, o fígado já era, e está com tuberculose. Vai morrer. Vai morrer logo! Mais uma. Mais uma, meu Deus! Se matou com a bebida. E o que você vai fazer? O que você vai fazer por todas as mulheres daqui? Não há lugar pra nós, me dói ver o sofrimento de todas essas mulheres, me dói demais. Eu não aguento isso, me dói!!! Quarenta anos na rua, tudo o que aprendi foi na rua. Tudo o que sei, foi aqui que aprendi. Cada coisa que eu vi, cada coisa! E hoje durmo na calçada, porque não tem vaga pra mim. Não tem vaga pra mulher. Durmo aqui, durmo ali. Durmo por aí. Você pensa que eu gosto? Não gosto não. Mas não tenho pra onde ir. De noite, aquela ali, aquela que vocês levaram agora há pouco, ela apanhou daquele macho. Ah, então você já sabe, ela te contou. Mas não foi só um tapa não, ele deu murro nela, bem aqui, ó. Deu muito murro nela. Ele maltrata muito ela. Mas ela é doente, meu Deus! Ela toma remédios, você sabe disso? Ela é doente da cabeça, não pode! E ninguém faz nada por ela! Você sabe como dói, você no meio da noite tentando dormir, ouvindo ali do seu lado ela tomando paulada, e você não pode fazer nada? Dói demais! Não dá pra dormir assim. E o que você vai fazer por ela? Por nós? Por todas as mulheres? Nada, né? Nada. Vocês são assim, não fazem nada. Olha ali as meninas, eu não suporto ver isso, você tem que fazer alguma coisa!!! Tão novinhas! Meu Deus, tão novinhas.

Wilma é uma mulher forte. Fortíssima. Inteligente, articulada, ousada. Quarenta anos de rua não fizeram com que seu coração endurecesse. Wilma é uma mulher sensível.

Então tá bom, quarta-feira vocês voltam. Quarta-feira! As coisas não são assim, não! Não pode ser só na quarta-feira! Tem que ser todo dia, tem que ser toda hora, tem que ser vinte e quatro horas! As mulheres estão sofrendo, as mulheres estão morrendo por aqui, e vocês voltam só na quarta-feira?!? Abram os olhos, vejam, olhem à sua volta, olhem o que está acontecendo com essas mulheres! Façam alguma coisa!!!

Wilma estava sofrendo demais.

Por impulso, eu a abracei. Nem sei se ela queria um abraço, mas eu com certeza precisava de um. Agradeci sua força, seu cuidado e amor por todas as outras mulheres. Agradeci suas palavras, duras. Não tentei me justificar. Não havia justificativa. Ela tinha razão. Tudo o que eu dissesse seria pequeno. Havia mulheres sofrendo, sim, havia mulheres morrendo, sim. Mulheres, muitas, cercadas de violência e descaso. Tudo o que tentássemos fazer seria pequeno. Tudo o que fazíamos era pequeno. E a pequenez que fazíamos era ir ali, às quartas-feiras, conversar. E escutar. Só isso.

Wilma aceitou o abraço. Seu corpinho magro se entregou. Tão forte, tão frágil. Entregue ao abraço, ela se aquietou. Depois, perguntou se voltaríamos mesmo na quarta. Ela queria conversar mais.

Então, esboçando um sorriso, talvez o primeiro por dias, balançou os braços pelo ar, como quem bate asas e vai voar. Olha só, estou mais leve! Estou muito mais leve! Falei um monte, meu Deus, como falei! E não é que estou me sentindo melhor, muito mais leve? Acho que vou até voar.

Voar.

Dispensei as escadas rolantes, desci as escadarias a pé. Eu precisava de tempo. Ou talvez eu precisasse de espaço. O vagão que entrei estava lotado. As mulheres ali viajavam em silêncio, mas a voz de Wilma ainda me falava. Naquele mesmo instante, havia muitas mulheres sofrendo, havia muitas mulheres morrendo. Morrendo de crack, de bebida, de paulada. Morrendo de tanto sofrer.

Um sofrimento sem tamanho, que conversa nenhuma consegue pôr fim. No máximo, talvez uma conversa possa deixar alguém um pouco mais leve, até quase poder voar. Quase voar. Só quase.

É muito pouco.

passarinho

Publicado em Sem categoria | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

“Causo” de rua

por Paty Silva Cacciatore
(originalmente publicado em sua página pessoal do Facebook)

Vou contar mais um “causo” de rua.

Ontem esperando uma conexão no meio da Sé, um homem franzino e falando bem baixinho me chamou, quase que sussurrando. Cachaçado em alto grau, mal conseguia ficar em pé. Às vezes eu o segurava pela gola da jaqueta, em outro momento escorava ele num poste. Chamei-o de caranguejo também kkkkkkk.

Ele não queria dormir na rua naquele dia. Tinha no bolso encaminhamento para o Complexo Prates (Cracolândia). Não queria ir para a Luz, tinha medo de se perder. Me ofereci para acompanhá-lo no local que o atenderam, vai que alguém o ajudava melhor que eu. E ele chorava, falava que estava machucado. Um dos braços parecia não ter por completo.

Vamos, não vamos, e o tempo passava. Lembrou-se que era seu aniversário. Dizia – Hoje é dia 2 de agosto, quarta? É meu aniversário – os olhos dele e os meus se encheram de lágrimas. Amo aniversários de paixão. Chororô daqui e dali, dei um saquinho de doces para ele. Vamos ou não? Vamos. Mas como acompanhar um homem que dá dois passos para frente e oito para atrás? Kkkkkkkkkk. Paramos de novo. Estávamos em três amigos, fazendo amizade, dando atenção para vários ao mesmo tempo. Parar e prosear é uma retórica.

Quis que eu ligasse para sua irmã. Sabia o telefone. Liguei, um rapaz atendeu, expliquei o que acontecia e que Paulo pedia ajuda da irmã. Segundos depois, estava falando sozinha. Desligou na minha cara.

Paulo chorou copiosamente. Em que momento as conexões humanas se perdem mesmo?????? Argumentava se eu tinha falado que ele precisava dela.

Se faz o que nessa hora? Nada. Não tem o que se julgar.

Um coleguinha de rua e de cachaça dele passou por nós, tirou sarro dos seus cabelos pintados, puxou-o pela jaqueta e lá se foi Paulo cambaleando praça afora.

Fim… Paulo ia dormir na rua e provavelmente daqui a uns dias nem esteja mais nessa vida.

2017-08-03 09.47.22-4

Paulo traz tatuado no braço o nome da filha

 

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

O mistério das conexões

É intrigante como – e por que – as conexões acontecem. Para mim, é quase um mistério.

***

Demos uma volta completa pela Praça da Sé sem fazer nenhum novo amigo. Jair lamentou: “Que pena, bem hoje que eu vim não tá acontecendo nada”, mas logo Paty o tranquilizou, contando que na semana anterior havia sido parecido, mas de uma hora para outra conhecemos um monte de gente e acabou sendo uma tarde super legal. Eu pensei alto: “No fundo, acho que depende é da gente mesmo. Se estamos meio fechados, desconfiados, então nada acontece, mas se estamos com um sorrisão no rosto, se estamos abertos, aí eles percebem e de algum jeito chegam até nós.” Enquanto seguíamos, ainda pensei que se estamos de verdade desejando o melhor para eles, com o nosso coração focado neles, então de alguma forma eles captam isso, sentem a nossa intenção, e uma nova conexão acaba naturalmente acontecendo.

Aproveitei nossa conversa como um lembrete para mim mesma, e tratei logo de calibrar a minha intenção. Coincidência ou não, nem três minutos depois já estávamos os três engajados em diferentes e intensas novas conexões.

cópia de 2017-08-02 16.47.58

***

Alonço contou como para ele a conexão aconteceu: “Eu vi você de longe, nessa cor de laranja, e pensei: preciso falar com ela, TENHO que falar com ela. Eu nem sabia o que eu queria falar, mas eu tinha que falar com você. E não é que você veio vindo, vindo, acabou chegando até mim, sentou aqui do meu lado, e agora ficamos amigos? Nunca conversei assim antes, eu sou tão solitário.”

2017-08-02 16.47.34

Falando de seus sentimentos e da própria história, Alonço chorou como uma criança pequena, apesar de seus quase 60 anos.
“Alonço, agora somos amigos, amigos de coração. Quando o senhor se sentir solitário novamente, lembre-se da amiga de camiseta laranja e pense: ela agora pode até estar bem longe, mas sei que onde ela estiver, estará querendo o meu bem!”
Tiramos alguns ‘selfies’, a pedido dele, para selar nossa amizade.

***

Esdras, educado, pediu: “Posso ler sua camiseta, com sua licença? Ação, conexão, apoio, amizade. Deixa eu entender. Ação é porque vocês saíram de suas casas e vieram até aqui, não ficaram só pensando. Conexão tá claro, só aqui já se conectaram com muita gente. Amizade, essa também é óbvia, é o que estamos fazendo aqui. E apoio? Como vocês apoiam?”

CASA-LOGO-LJComecei a responder, meio que justificando que podíamos fazer pouco, que tentávamos dar “pequenos” apoios… Por exemplo, há instantes eu havia telefonado para a mãe de um homem que devia estar preocupada com ele, enquanto meus amigos viam como acompanhar um senhor até o albergue porque ele estava com medo de se perder. Às vezes, conseguíamos ajudar com alguma coisa que a pessoa estava precisando, uma roupa, um alimento, mas nossa ONG era pequenininha, não tínhamos muitos recursos, e… Não cheguei a concluir o raciocínio, ele me interrompeu: “Isso é bom, dar coisas, mas isso tem muito por aqui. Muita gente vem e nos dá um monte de coisas. O maior apoio que vocês dão, pelo que estou vendo, é conversar. Vocês dão atenção pra gente, dão tempo, sentam junto, sem fazer distinção. Não temos isso nunca, de ninguém. Isso faz bem pra gente. Isso é apoio de verdade.”
Então releu novamente as palavras da camiseta ‘ação, conexão, apoio, amizade’, e concluiu: “As palavras estão corretas.”

***

Conexões com quem está nas ruas abandonado  – ou que nelas se abandonou, não muda muito – , vai aí um “mistério” que estamos aprendendo a exercitar.

 

Salvar

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Ou remédio ou comida

Achei Celine muito magrinha. Alegre, esperta, mas muito magrinha. Sua mãe concordou: “Sim, ele tá magrinha sim. Mês passado eu levei ela no postinho. O médico achou que podia ser verme. Receitou uma vitamina e um vermífugo”.

Fiquei feliz que ela tivesse levado a menina ao posto de saúde, comprovando a minha impressão de que ela é uma mãe muito atenta e cuidadosa. Logo perguntei se ela havia notado alguma melhora depois de dar os remédios, mas sua resposta veio curta: “Eu não dei”.

Não era isso que eu tinha imaginado ouvir de uma “boa mãe”. Do alto da minha ignorância, reagi: “Mas é importante dar! Remédio é coisa muito séria, uma verminose pode prejudicar muito o crescimento dela, você precisa dar!” Fran não se alterou: “Eu sei. Mas eu tinha que escolher: ou eu comprava comida ou eu comprava os remédios. Escolhi a comida”.

***
Fran faz serviços domésticos pela região, mas acha que com a crise as pessoas estão sem muito dinheiro: “Quem pedia faxina uma vez por semana, agora às vezes pede uma vez por mês. Aí fico sem trabalho. Se tivesse serviço de varrer rua eu pegava na hora, eu não me importo”.

Ela e o marido têm se revezado: enquanto um fica com as crianças, o outro sai para fazer um bico ou para procurar emprego. Às vezes ele sai bem cedo, levando uma marmita e muita disposição para rodar o dia todo por São Paulo, na esperança de achar um trabalho. Ela, por sua vez, costuma procurar ali por Cotia mesmo, nos bairros mais próximos: “Não estou conseguindo andar tanto, pois fico cansada demais, sem ar para respirar. O quarto aqui é muito frio, entra vento pelas frestas, e agora piorei. Eu precisava usar aquela bombinha de cansaço, mas é muito cara”.

***
A bombinha, a vitamina e o vermífugo, com os descontos fornecidos pela farmácia e pelo laboratório (fazendo o cadastro), saíram por cento e trinta reais e alguns centavos. Valor alto demais para um casal desempregado que se vira como pode para pagar o aluguel do barraco e colocar alguma comida no prato.

2017-07-12 09.54.59.jpg

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Crack tem saída

“Crack. A melhor saída é não entrar”, diz a propaganda. Pura verdade. Porém, e quem já entrou? Fica sem “saída”? Eu complementaria: “Se você entrou, procure ajuda, aceite ajuda. Há saída, sim.”

Fabíola, uma amiga desde os primeiros passos da CASA Bodisatva, recentemente escreveu em seu caderno, com letra super caprichada: “(…) Quero poder resgatar o amor das minhas irmãs, dos meus sobrinhos, do meu irmão, da minha mãe e do meu padrasto, enfim quero recuperar o tempo que perdi com o crack e transformar esse tempo em aprendizado e renovação”.

Reencontrar Fabíola foi uma alegria! Comemoramos com um longo e forte abraço. Depois que ela “sumiu” do ponto onde costumava estender o seu colchão e a sua cômoda cheia de bibelôs, em pleno Minhocão, e depois das mil histórias, todas verdadeiras – porém contraditórias – que o povo da rua nos contou, chegamos até a suspeitar que “o pior” pudesse ter acontecido. Morrer, para quem vive nas ruas, definitivamente parece ser “uma possibilidade mais possível” que para o resto da população…

Para o nosso alívio, contudo, com muito entusiasmo Fabíola nos contou que nos últimos meses, depois de mais uma vez bater no fundo do poço, começou a se tratar. Com o apoio da ‘Missão Belém’, ela finalmente encontrou um caminho: “Fui até batizada”. Da prefeitura, conseguiu uma vaga num hotel, “um lugar muito bom e com três refeições”. Em seu caderno, mostrou-nos uma de suas reflexões, escrita em meio a algumas passagens bíblicas: “Eu e Dani fomos abençoados por Deus. Saímos da rua e hoje nos encontramos embaixo de um teto, com dignidade e expectativa de vida. Podemos agora de cabeça erguida mostrar primeiro para nós que somos capazes e que não perdemos a vontade de viver com dignidade”.

Enquanto conversávamos, sentadas ao redor de uma das mesinhas do recém-inaugurado espaço da prefeitura, o “Atende 2”, alguns jovens vinham falar com ela: “São todos meus filhos. Estou cheia de filhos, de todas as idades.” Respeitada e admirada como alguém que “venceu o crack”, Fabíola cuida deles e os orienta: “Chico, não quero mais saber de ver você indo dormir na barraca do Zé. Quero você longe de lá!” O rapazinho se desculpa, se justifica, dá satisfação como quem dá satisfação à própria mãe. “João, você cumprimentou a Luciana? Não??? Venha aqui dizer olá, ela é minha amiga”. Aqueles rapazes, como explicou a funcionária do ‘Atende’, são meninos que têm autorização para passar o dia ali dentro, por estarem tentando se manter longe das drogas. Recebem todas as refeições (deliciosas, segundo Fabíola), ajudam em pequenos serviços, cooperam com as atividades do local, não ficam vagando pelas ruas. Ali estão sendo cuidados, estão de alguma forma protegidos.

Do lado de fora, uma multidão de usuários se concentrava: parte deles aguardava em frente ao portão, na expectativa de uma das disputadas vagas para o pernoite, enquanto a outra parte, bem maior, aguardava o fim da limpeza da rua ao lado, onde logo mais voltariam a instalar o “Fluxo”, local onde o consumo e o comércio do crack e outras drogas acontece de forma concentrada e livre. Tudo cercado por intenso policiamento, inclusive através de um drone que a tudo e a todos “vigiava”.

No novo “apê” de Fabíola, soubemos que falta uma geladeira e uma TV. Além de cobertor, roupa de cama, travesseiro. Mas ela não dá demasiada importância a isso, “estou feliz com minha nova vida”. Ao final de nossa conversa, ela tem uma ideia: “Será que você não poderia pedir ajuda pros seus amigos da internet, pra tentar conseguir pelo menos uma geladeirinha velhinha pra mim? Pode tirar minha foto, pode publicar minha história, pode fazer o que você quiser, minha vida é um livro aberto e eu não tenho nada a esconder”. Na verdade, depois ela brinca, ela só tem a esconder o sorriso, pois lhe falta um dente.

IMG_6211

 

Prometi tentar “uma vaquinha” para comprarmos uma geladeira de segunda mão lá mesmo onde ela mora, na Brasilândia. Assim evitamos os altos custos do frete. Se der, compraremos também uma pequena TV. Além disso, prometi divulgar que ela busca por uma oportunidade de trabalho como cozinheira ou ajudante de cozinha: ela tem experiência em restaurantes e já fez muitos cursos, até de cozinha vegetariana. Prometi que, a quem pedisse, eu enviaria o seu currículo.

Enquanto conversávamos, enquanto líamos o seu caderno, ficava lembrando do abraço que tínhamos dado ao nos reencontrarmos, quase um abraço de novela. Um abraço tão forte, tão cheio de emoção, de alegria, de carinho, de energia, que imediatamente me fez sentir que todo o esforço de atravessar a cidade para ir até a Cracolândia naquela tarde fria tinha valido a pena. Mais que isso, senti que todo o trabalho feito para tentar ajudar, ainda que de maneira mínima e inconstante, aqueles que parecem não ter saída, é um trabalho que precisa ser continuado.

IMG_6204

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Sucumbi

por Paty Silva
(originalmente postado em seu Facebook pessoal)

Putz, eu “sucumbi”. Fazia muito tempo que não chorava com histórias de vida das pessoas em situação de rua.

Hoje numa das minhas andanças pela rua, onde tudo dá errado ou tudo dá certo e às vezes você encontra tudo do avesso, eu e minha amiga Luciana conhecemos a história de vida de uma mocinha na rua.

História bem leve “sqn”… A mãe matou o pai. Com 9 anos foi acolhida em um abrigo (Saica) e saiu de lá com 18 anos e o primeiro filho. No vai e vem da vida, está com 20 e poucos anos, namorado preso e 3 crianças para criar (2, 8 e 9 anos).

Mora num barraco no meio da estrada Anhanguera. No fim do ano a Prefeitura derrubou o barraco e ela voltou para a rua. E ela, sozinhaaaaaa (foi aí que não me contive) montou o barraco novamente. Mora ela, os 3 filhos, atualmente uma amiga e um facão (para proteção). Cheio de escorpiões, esgoto a céu aberto. Desculpe, mas é foda. Imaginaram a situação?

Ela é super esperta, está acionando todos os serviço da Prefeitura para conseguir uma moradia para ela ficar com os filhos, mas está difícil.

É muita demanda que tem na rua, história triste atrás da outra, mas a gente vai ajudando devagarzinho. Hoje não foi fácil.

Semana que vem vamos lá conhecer o barraco. Oowww, ninguém tem bujão de gás vazio para doar? Caro isso, não? 200 paus o bujão + gás.

Tenho que ir sozinha conhecer uma família em Interlagos, que me pediram ajuda. Ufaaaaaa, acho que deveria ser assistente social.

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário