“Você é o que dele”?

Duas idas à delegacia, 3 ao necrotério da Santa Casa, 2 à Enfermaria, 2 ao IML, 1 ao Serviço Funerário. 4 dias de peregrinação depois da morte do meu amigo para impedir que ele fosse enterrado como indigente.

***
Que amigo não vale muita coisa nessa hora, a gente percebe bem antes, desde as visitas no Hospital. A cada passo na recepção, a cada pergunta a alguém da equipe médica, devolvem outra: “Você é o que dele”? “Amiga” é uma resposta que ora decepciona, ora levanta suspeitas. Cheguei a pensar em dizer “ex-cunhada” para ver se ajudava.

Mas ele era meu amigo. Conhecia de outros Natais, data mais marcante para quem faz amizade pela rua, com quem mora na rua, do que os Carnavais.

Já faz uns quatro anos que passo o Natal com esses amigos. É sempre uma ceia feliz, animada, “família”. Sempre. Em 2013, a festa ganhou reforços: por “ordem” (não sei por que as aspas, porque foi uma ordem mesmo) de nosso mestre Jigme Khyense Rinpoche, coletamos doações entre os participantes de um retiro no Odsal Ling (o tempo de budismo tibetano que frequento em Cotia) para fazer compras. “Comprem o que eles precisarem”. Não precisava ser só para a festa.

Uma das necessidades, sempre, é colchão. Passamos no mercado, olhamos os preços quando me deu um estalo: e se levássemos cadeiras de praia? Colchões, de um jeito ou de outro, eles arrumam – pegam da calçada os que são descartados, recebem da Assistência Social ou de instituições religiosas que fazem doações regularmente. Mas cadeiras? Nunca vi. Cadeiras dão vida, tiram eles do chão, do próprio colchão. Arejam. E é só dobrar e pronto, dá pra guardar em algum lugar em que o “rapa” não leve. Colchão, de tempos em tempos, vai para o caminhão da prefeitura…

As cadeiras – coloridas, novinhas! – fizeram um sucesso louco. Eles não brigaram por elas não. Quem pegou, pegou e os outros se conformaram numa boa, mesmo desapontados.

Antes de eu ir embora, um rapaz com sotaque nordestino bem forte, rosto redondo e olhos idem, trouxe a cadeira tão desejada nas mãos e pediu para que eu levasse embora comigo. “É pra não róbá. Depois você traz pra mim”.

É, na rua tem muito roubo… Coisa dos “nóia”, de quem os outros moradores de rua morrem de raiva porque não respeitam nem os amigos. Levam mochila de roupa, radinho de pilha, tênis, os pertences mais preciosos para trocar por pedra.  Às vezes algum toma uma surra e é posto para correr. Outras, foge antes que aconteça. Várias vezes eu perguntei por alguém – “Cadê Fabíola? E Andrezão, que nunca mais eu vi?” – e a resposta foi um “Humpf. Tomou um pau… Ele que não apareça mais aqui”. Várias vezes esse alguém apareceu de novo depois de um tempo, voltou a conviver e tudo bem – até a nova pisada na bola. Um ou outro saiu dessa vida e nunca mais usou pedra, ficou só na pinga mesmo. Farinha de vez em quando, maconha aqui e ali, mas principalmente pinga, muita pinga.

***
Meu amigo bebia muito, muito. Uma vez vi a turma o carregando do jeito que dava, segurando pernas e braços – eles estavam melhor do que ele, mas ainda assim trôpegos – pra tirar do meio-fio e coloca-lo sobre seu colchão debaixo do Minhocão. Chapado. A Bolinha, cadela de todo mundo mas muito afeiçoada a ele, deitava do seu lado e não saía mais.

Aí ele sumiu. Fiquei um tempo sem ver. Sentia um aperto de pensar que talvez tivesse morrido. Foram várias mortes ano passado por cirrose. As malocas do Minhocão se desfizeram e rearranjaram, as pessoas se espalharam, cadê ele?

Um dia, apareceu. Estava na maloca nova, debaixo do viaduto Antarctica, em frente ao West Plaza. Fiquei tão feliz! Estava com cara boa, arrumado, sóbrio. Desinchado, feliz. Sorridente e doce como era nos momentos sãos.

Era perto do Natal outra vez. Meu amigo logo montou uma árvore linda em cima de um carrinho de supermercado. Durante o dia, empurrava para perto da calçada, deixava bem visível com uma caixinha pedindo contribuições. À noite trazia para perto de si, na escuridão do vão do viaduto para… não roubarem.

Com o dinheiro que entrava, comprava MAIS ENFEITES! E tinha um bom gosto incrível, uma noção de decoração muito melhor que a minha. Tiravam foto da árvores, “iam colocar na internet”, disse cheio de orgulho maroto.

Um dia quis tirar foto também, com ele ao lado da árvore. Dei um grito: “Flavio! Chega aí”! Os outros “maloqueiros” se entreolharam. “Quem é Flavio? Quem você tá chamando??”. “ O Flavio, oras. Ele”! Surpresa geral, caíram na gargalhada. “Ô Pamonha, você chama Flávio?? O Milho chama Flávio”?

Pedi para explicarem por que “Milho”, “Pamonha”. Da próxima eu conto.

 

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Sobre soniafrancine

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