“Você é que dele?” – parte 2

“O nome do Pamonha é Flávio?!!”

Os amigos do Milho, aka Pamonha, morreram de rir. Pamonha, ao menos em São Paulo (e quando eu era pequena, não sei se os mais novos ainda usam) quer dizer palerma, tapado, meio tonto, mas o Flavio nunca reagiu mal. Apesar do tom de gozação, o apelido era lisonjeiro na origem: quando trabalhava como ambulante com um carrinho de milho e pamonha, oferecia para os amigos da rua (de graça, naturalmente).

Quando o conheci, já não tinha mais o carrinho. Como os demais, catava sucata aqui e ali, o suficiente para passar mais um dia. Mas se perguntassem “você está trabalhando?”, respondia “SIM”, com orgulho. “No Vila Country”. Tomava conta de carro nos dias de show. Nunca o vi durante o expediente, mas aposto um braço como era gentil e realmente oferecia seu trabalho.

***
O Flavio era divertido, risonho, gostava de cozinhar. Era caprichoso, ficava um bom tempo na frente do “fogão”, indo e buscando temperos na “mesa da cozinha”. As roupas sempre limpas, camiseta e bermuda clara, tênis e meia, quase sempre um boné. Não era de muito de se abrir, mas um dia perguntei de família e ele falou que tinha filho. “Você vê ele”? “SIM”, de novo com orgulho. De vez em quando levava dinheiro lá para a mãe dele; essa era uma das razões pelas quais trabalhava, ora essa.

Um dia me chamou de lado para mostrar uma providência estratégica: “Tá tudo aqui. Minhas roupas, tudo. Se o rapa vier, ó”! E mostrou como era fácil puxar a mala e proteger de uma vez só todos os seus percentes.

***
Eu já fui “o rapa”. Dói. Como autoridade, não posso fechar os olhos, condescender, prevaricar. Posso e devo colocar as coisas em ordem de prioridade, até porque não dá para fazer tudo ao mesmo tempo – aliás não dá para fazer tudo, ainda que tenha um século de prazo – e sempre tinha muitas outras coisas urgentes para fazer.  Mas quando vinha uma reclamação com base legal (vem muita reclamação descabida), só me restava agir.  Isso incluía impedir o trabalho de vendedores de água e cerveja na porta do estádio (em dia de jogo, as equipes “da apreensão” chegavam à Sub com caixas e mais caixas de isopor. Abriam as cervejas, despejavam no ralo e gravavam vídeo para provar. Talvez escapasse uma ou outra, mas os funcionários não podiam se beneficiar do produto apreendido). Incluía pipoqueiros, carrinhos de milho, mesas na calçada sem autorização. Ser Subprefeito é DURO. E incluía também pertences “não pessoais” de moradores de rua – colchão, fogão, “móveis”. Não se pode obrigar ninguém a sair da rua (um Inspetor da GCM, muito consciencioso, dizia para os munícipes que queriam arrancá-los à força de algum lugar: “As pessoas tem o direito de ir, vir e permanecer”), mas devíamos dificultar sua permanência… Desestimular a “moradia” na rua e desimpedir o espaço público.

Ao menos as minhas equipes tinham ordem EXPRESSA para não arrancar nada à força, não agredir, não aceitar provocação, não desrespeitar, não reagir. Até parece que sempre seguiam. “Veio pra cima de mim com um pau, queria que fizesse o que”?

Uma vez reuni todo o rapa no auditório da Subprefeitura. A “peãozada” e a “chefia”. Perguntei: “quem aqui já comprou de camelô”? Todas as mãos levantaram. “Quem aqui já foi camelô”? Muitas mãos levantaram.

***
O Flavio começou a aparecer muitas vezes segurando o lado do rosto com cara de dor. “Dente”. “Já foi ver isso? Vai cuidar! Quer que a gente vá junto? Quanto mais demora, pior é! O tratamento fica mais demorado, mais difícil e mais doído”! “Tô vendo, tô vendo”.

Tava e não tava. De vez em quando ele ia sim à UBS, à AMA onde fica sediada a equipe de Saúde que os acompanha na rua, passava por consulta, pegava um remédio e encaminhamento. Resolutividade zero.

Quando me via, se queixava de dor, levava uma bronca e eu reforçava o convite: “Quer ir lá AGORA”? “Não, é na sexta de manhã que ele tá lá”. Sempre garantiu que ia, eu não me preocupasse.

A bochecha aumentando, a dor persistindo. Mostrava os braços afinando, “nem consigo comer”. Para aguentar a dor… Pinga.

Um dia pegou minha mão e puxou para que eu tocasse o rosto: onde devia ser macio, duro que nem osso. “É um cisto”. Não entendi de primeira, ele já estava com dificuldade para falar.

***
Dente nada, era um tumor. Quando finalmente aceitou que eu fosse com ele ao Pronto-Socorro, saiu da maloca e não voltou mais.

Depois eu conto o fim da história, que sabemos desde o começo.

 

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Sobre soniafrancine

Adoro política. E futebol, música, jardinagem, cães, gatos, crianças, cinema, livros, fotografia, viajar, escrever, dançar, comer
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