Remédio, um luxo

A pergunta foi a de sempre, mas a resposta não foi a usual: “Não, Lu, infelizmente não está tudo bem. O Beto está sem remédio desde o dia 16. Tá em falta na farmácia do hospital”.

Beto, um amor de menino, depende de medicamentos controlados praticamente desde que nasceu. Sua mãe, extremamente dedicada e responsável, sai todos os meses de Cotia e vai ao Hospital das Clínicas para retirar os comprimidos necessários para aquele mês. Como ela costuma dizer, ir à farmácia do HC é o compromisso mais importante da sua vida: tem de estar lá no dia e na hora exatos, chova ou faça sol, pois sem os medicamentos o garoto tem dores de cabeça terríveis, seguidas de fortes convulsões. Recentemente, inclusive, ele esteve internado por vários dias devido a algumas complicações.

Ocorre que, no último dia 16, Rose foi à farmácia do HC e… dois dos três medicamentos necessários estavam em falta. Em quase 13 anos, foi a primeira vez que isso aconteceu.
Voltou lá no dia 24, mas eles continuavam em falta.
Beto, já se queixando de dores de cabeça, começou a faltar à escola.
Rose retornou ao hospital no dia 1º de março, mas os medicamentos ainda faltavam. “Não há previsão de chegada”, repetiam os funcionários a todos os que também eram surpreendidos pelas prateleiras vazias.
O menino, àquela altura, já se queixava de fortes dores de cabeça. Sua mãe, conhecendo bem a evolução dos seus sintomas, já sabia que as convulsões estavam muito próximas. Ela precisava urgentemente conseguir seus remédios.

Rose tem uma renda bastante modesta, toda comprometida com a alimentação e os cuidados básicos dos 4 filhos. Eles vivem em uma humilde casinha de madeira e ela não tem como se dar ao luxo de pagar passagens de ônibus para ir muitas vezes por mês à farmácia do hospital. Também não tem como se dar ao luxo de gastar mais de 200 reais em remédios, todos os meses. E Beto, nosso querido Beto, não tem como se dar ao luxo de ficar sem os medicamentos de que depende. Simplesmente porque não é uma escolha dele tomar tanto remédio, é uma necessidade.

O “luxo” mensal de Beto consiste em 3 caixas de Depakene, a 57 reais cada, e 6 caixas de Clobazam, a 13 reais cada (algumas farmácias dão algum desconto sobre esse valor). Há ainda um outro medicamento, a Risperidona, que Beto toma diariamente mas que, ao menos até este mês, ainda estava disponível no estoque da farmácia do hospital. Felizmente, ou mais 100 reais seriam necessários.

Na mesma noite do telefonema, levei até Rose o dinheiro para que, já no dia seguinte, ela pudesse voltar ao HC para tentar conseguir as receitas com a neurologista que acompanha o Beto. Não era mais possível ficar esperando, era preciso comprar os remédios. Ainda estava escuro quando mãe e filho, na manhã do dia 2, mais uma vez embarcaram no ônibus para São Paulo.

Na volta para casa, já com com os preciosos papeizinhos azuis em mãos, eles precisaram parar de farmácia em farmácia pois o Clobazam estava difícil de encontrar. Finalmente um dos estabelecimentos informou que dispunha de 3 caixas, porém já estavam todas reservadas para um senhor. Beto, não suportando mais um fracasso, começou a chorar. Estava cansado, sua cabeça doía muito. A farmacêutica, vendo o menino bastante pálido e já com os olhos revirando, sensibilizou-se com o seu sofrimento e com a agonia da mãe e decidiu retirar as caixas da reserva, vendendo-as imediatamente. Disse a Rose que não se preocupasse, pois o senhor que as havia encomendado era um cliente habitual que ela já conhecia bem, e com certeza ele poderia esperar mais alguns dias.

Assim, Rose pode comprar as 3 caixas que havia em estoque, e as outras 3 necessárias já ficaram pagas, para retirada posterior. Só pode levar 2 caixas do Depakene porque o dinheiro que ela tinha em mãos não era suficiente para a terceira caixa.

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Graças ao bom coração da farmacêutica e a sua própria perseverança, Rose conseguiu garantir o “luxo” de Beto, ao menos para os próximos dias.

Não quero ser pessimista mas, pelo andar da carruagem no nosso sistema único de saúde e no nosso país, que a cada dia descobre mais um desvio milionário de recursos de áreas “supérfluas”, como educação e saúde, ao que tudo indica mês que vem a batalha da Rose vai ter de recomeçar. Mais 200 e tantos reais serão necessários, além de muito esforço e, principalmente, altíssimas doses de paciência.

Espero, de coração, estar redondamente enganada.

2016-01-26 17.57.27- CB José Roberto, Rose - Recanto - Hospital

Beto, o “valente bombeiro”, durante a última internação

 

2016-01-26 17.54.09- CB José Roberto, Rose - Recanto - Hospital

 

 

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2 respostas para Remédio, um luxo

  1. renatapucci disse:

    Que trabalho lindo, parabens… Gostaria de ajudar vcs, como faco?

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    • Oi, Renata, que legal que você quer ajudar! Olha só: a gente te respondeu há pouco no Facebook, tá bom? Como tem muitos jeitos de ajudar, seja com dinheiro, com trabalho (nas ruas ou à distância, pelo computador), com certeza de alguma forma você se encaixa!
      Grande abraço, e obrigada por ler 🙂

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