De quem é o fracasso?

Carol tem 11 anos. Sua casa está praticamente apoiada em um córrego e possui trincas e rachaduras comparáveis ao Grand Canyon. Sua geladeira está quebrada, servindo apenas como armário. Os ratos circulam livremente pela casa, mesmo com sua mãe se preocupando em manter tudo bem limpo. O banho é de balde, o vaso sanitário alimenta o córrego. Comida, quase sempre tem. Quase sempre.

Carol é uma menina bonita, alegre, comunicativa.  Sonha em ser atriz.

Carol passou para o 5º ano de uma escola municipal em Cotia. Ela já tem o material, já tem a mochila, já tem os livros. Mas há um “detalhe” que lhe falta: ela ainda não sabe ler nem escrever.

A mãe de Carol, no final do ano passado, foi à escola implorar para que a menina não fosse aprovada. Ela não sabia nada, de que adiantaria seguir em frente? Mas a escola alegou que não podia repeti-la. Aliás, não podiam repetir ninguém. Carol teria que passar para o 5º ano, sabendo alguma coisa ou não.

As aulas começaram, e semana passada a mãe de Carol voltou à escola. A professora tem muito boa vontade, é boazinha, mas explica que não pode fazer muita coisa: são 37 alunos em sala, e ela não tem condições de dar atenção exclusiva para a Carol, ao menos não o tempo todo. Bem que gostaria, mas não consegue. Ainda assim, de vez em quando, sempre que dá, ela se senta ao lado da menina para correrem juntas atrás do aprendizado que nunca aconteceu. Mas parece sentir que correm uma maratona perdida, já que Carol está demais de atrasada em comparação a sua turma. Para a mãe, a professora desabafa: “Por mim, ela devia ter repetido. Seria melhor para mim, e seria muito melhor para ela. Mas não pode. A gente não tem autorização para repetir ninguém. Tem de passar todo mundo de ano.”

Carol, por sua vez, acha meio chato ir à escola. Como é mesmo que ela poderia achar interessante, se ela não tem condições de entender o que está acontecendo, se não consegue ler o que está na lousa ou nos livros, se não tem as competências necessárias para fazer as tarefas ou as lições? Como, se perante os colegas de classe, ela se sente uma fracassada, para não usarmos a palavra ‘burra’?

Carol me mostra o seu caderno, ainda novinho. As primeiras páginas já estão todas escritas a lápis. Ela fez cópias do livro e da lousa. Está bem caprichado, é verdade. Mas ela não faz a menor ideia do que ela própria escreveu lá. Não consegue ler as palavras, nem mesmo as primeiras sílabas. Sua mãe explica: “Ela não escreveu aquilo. Ela desenhou. Só copiou as linhas, as formas. É um absurdo isso.”

Sua mãe está inconformada. “Como podem passar a menina pra frente assim? O que vai ser dela no ano que vem? Então ela vai passar pro 6º, sem saber absolutamente nada??? Depois vai pro 7º… Até que série ela vai assim? E, pra piorar, ela nem gosta de fazer lição! Carol, você tem que se esforçar!!!”

Carol sorri amarelo. Não sabe nem o que dizer.

“Carol, você quer mesmo ser atriz?”, pergunto, já com “um plano” em mente.
“Quero!” Seu rostinho se ilumina.
“Então, acho que você vai precisar ler as falas das atrizes… Pra poder decorar, e depois repetir no teatro e na televisão! Uma atriz tem que ler e decorar os textos! Se você for uma princesa, tem que ler o que a princesa vai falar pro príncipe, tem que saber as palavras que ela vai usar… ‘Meu Príncipe Amado, meu amor, vamos juntos para o nosso lindo castelo?’ Pra isso, você vai precisar aprender a ler! Vamos aprender?”

Carol fica toda animada, provavelmente já se imaginando nos palcos, com seu longo vestido de cetim. Ela quer aprender, está claro. Mas também está claro que ela quer aprender algo que esteja de acordo com o seu nível atual, de um jeito que ela consiga entender, de uma maneira que ela possa acompanhar, e que possa progredir.

No seu caderno, encontrei escrito ‘BA – BE – BI – BO – BU’. Foi a professora que escreveu num dos momentos em que se sentou ao seu lado, enquanto os outros faziam a lição do dia. Com dificuldade, Carol conseguiu reconhecer que ‘B’ junto com ‘O’ dava ‘BO’, que ‘B’ junto com ‘A’ dava ‘BA’. Mas quando a gente tentava juntar os dois, ela saía atirando para todos os lados: “BO-lacha? BO-la? BO-nita?”

Não dei muita bola, continuamos brincando com as letras. Juntando as sílabas, formando palavras. No começo foi difícil, mas depois de um tempo ela já estava entendendo o “truque”: quando via escrito ‘BOBO’, mas arriscava um ‘BONECA’, a gente achava juntas onde estava o primeiro ‘BO’. Mas e o ‘NECA, onde estava? Deveria estar aqui… Mas no lugar, o que é que tinha? Um outro ‘BO’, igualzinho ao primeiro!!! Daí, pra chegar no ‘BOBO’, era um pulo. Só que ela conseguia ler “BOBO”, mais ainda não conseguia ligar o som a algum significado. Ainda era um som “vazio”. Então eu dava um “empurrãozinho”: “Do que você chama seu irmãozinho, quando ele te enche muito? Seu…?” Num instante ela matava a charada: “Bobo! É bobo que está escrito aí!”

Do fracasso à vitória, um salto feliz.

Assim fizemos com ‘BOBA’, ‘BABA’, ‘BEBE’, ‘BEBO’. E, no fim, um desafio: “Faz de conta que a sua mãe deixou você ter uma cachorrinha. O nome dela está escrito aqui. Agora é você que vai ter que me dizer qual é o nome dela.”
Ela foi tentando: “BI… BI… BI… BA… BA… BA… BI-BA… BIBA. É Biba!” Carol ficou tão feliz! Mas, simulando uma grande tristeza, choramingou: “Impossível isso, a minha mãe não gosta de cachorro…” Quase vi lágrimas. Rimos da sua encenação. Carol pode mesmo se tornar uma ótima atriz!

“Carol, se eu conseguir algum amigo meu, ou uma amiga, alguém que seja bem legal, e que possa vir aqui na sua casa todas as semanas pra brincar de letras e palavras com você, você topa? Você quer?” Antes que ela respondesse, sua mãe a alertou: “Mas não vai poder ficar enrolando que não quer sair da cama. Se vier alguém mesmo aqui te ajudar, vai ter que estar pronta e de banho tomado. A pessoa já vai fazer um grande sacrifício em vir até aqui, você não vai poder ficar fazendo ela perder o tempo dela. Pensa bem! Você quer mesmo?”

Carol pensou… pensou… pensou… e tomou uma decisão: “Eu quero!”

Que ótimo, o principal nós já temos! Agora só falta arranjar essa pessoa. Enquanto não arranjo, vou eu mesma quebrando o galho, para que a Carol descubra o quanto antes que o fracasso não é dela.

 

 

 

 

 

 

 

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Uma resposta para De quem é o fracasso?

  1. Marcos Mancuso disse:

    A pátria educadora é aqui! Ao menos é o que dizem os cartazes, com aquelas imagens lindas do “des” governo…

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