Fran

“Se meu almoço for água, não me importo. Mas o da minha filhinha, não dá! Ela não aguenta ficar muito tempo sem comer.” Fran tem uma voz firme, não faz drama do drama que está vivendo.

Seu marido trabalha, carteira assinada, mas a firma há meses só paga um terço do seu salário. Com 500 reais no bolso e tendo que pagar 300 de aluguel num barraco simples em uma favela, é claro que não há o suficiente para a família. Se não fosse o almoço na creche para sua filhinha de 4 anos, se não fosse o leite materno para seu bebê de 2 meses, e se não fosse a vizinha dividindo o arroz e o feijão que para ela mesma muitas vezes falta, seu drama seria infinitamente maior.

O marido de Fran foi na empresa implorar para que lhe pagassem o salário integral. Voltou abatido, as lágrimas escorrendo desesperança. Fran tentou animá-lo, se precisasse ela mesma iria trabalhar, deixaria o bebê com uma senhora que fica com crianças lá na favela. “Ninguém vai cuidar dele que nem eu, ele ainda está mamando. Mas se não der jeito, eu vou. Não posso ficar parada”. Apenas a consideração desta hipótese já a faz chorar.

Como mãe, sei o quanto é difícil essa decisão, ainda mais porque não estamos falando em deixar o filhinho num berçário com toda a estrutura que ele necessita. Estamos falando em tirar dele a melhor alimentação do mundo, o leite materno, para dar-lhe um leite de caixinha. Quando – e se – tiver leite de caixinha pra dar. Fran sabe que não é o melhor para ele, mas sabe também que a família precisa de algum dinheiro para sobreviver.

Muita gente ainda pensa – e declara – que na favela só tem preguiçoso. Viciado e preguiçoso. Que se a pessoa quiser mesmo, ela trabalha e se vira e “sobe na vida”. E que se fica “botando filho no mundo” sem ter condições pra criar, que aguente as consequências.

É fácil julgar à distância. Difícil é ir lá conhecer a realidade de perto. Difícil, mesmo, é compartilhar uma pequena parte das próprias condições privilegiadas, ou até mesmo do próprio tempo, com os menos privilegiados, tentando ajudá-los a, quem sabe, encontrar melhores condições para “subir na vida”.

2016-11-30-17-32-01

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s