Crack tem saída

“Crack. A melhor saída é não entrar”, diz a propaganda. Pura verdade. Porém, e quem já entrou? Fica sem “saída”? Eu complementaria: “Se você entrou, procure ajuda, aceite ajuda. Há saída, sim.”

Fabíola, uma amiga desde os primeiros passos da CASA Bodisatva, recentemente escreveu em seu caderno, com letra super caprichada: “(…) Quero poder resgatar o amor das minhas irmãs, dos meus sobrinhos, do meu irmão, da minha mãe e do meu padrasto, enfim quero recuperar o tempo que perdi com o crack e transformar esse tempo em aprendizado e renovação”.

Reencontrar Fabíola foi uma alegria! Comemoramos com um longo e forte abraço. Depois que ela “sumiu” do ponto onde costumava estender o seu colchão e a sua cômoda cheia de bibelôs, em pleno Minhocão, e depois das mil histórias, todas verdadeiras – porém contraditórias – que o povo da rua nos contou, chegamos até a suspeitar que “o pior” pudesse ter acontecido. Morrer, para quem vive nas ruas, definitivamente parece ser “uma possibilidade mais possível” que para o resto da população…

Para o nosso alívio, contudo, com muito entusiasmo Fabíola nos contou que nos últimos meses, depois de mais uma vez bater no fundo do poço, começou a se tratar. Com o apoio da ‘Missão Belém’, ela finalmente encontrou um caminho: “Fui até batizada”. Da prefeitura, conseguiu uma vaga num hotel, “um lugar muito bom e com três refeições”. Em seu caderno, mostrou-nos uma de suas reflexões, escrita em meio a algumas passagens bíblicas: “Eu e Dani fomos abençoados por Deus. Saímos da rua e hoje nos encontramos embaixo de um teto, com dignidade e expectativa de vida. Podemos agora de cabeça erguida mostrar primeiro para nós que somos capazes e que não perdemos a vontade de viver com dignidade”.

Enquanto conversávamos, sentadas ao redor de uma das mesinhas do recém-inaugurado espaço da prefeitura, o “Atende 2”, alguns jovens vinham falar com ela: “São todos meus filhos. Estou cheia de filhos, de todas as idades.” Respeitada e admirada como alguém que “venceu o crack”, Fabíola cuida deles e os orienta: “Chico, não quero mais saber de ver você indo dormir na barraca do Zé. Quero você longe de lá!” O rapazinho se desculpa, se justifica, dá satisfação como quem dá satisfação à própria mãe. “João, você cumprimentou a Luciana? Não??? Venha aqui dizer olá, ela é minha amiga”. Aqueles rapazes, como explicou a funcionária do ‘Atende’, são meninos que têm autorização para passar o dia ali dentro, por estarem tentando se manter longe das drogas. Recebem todas as refeições (deliciosas, segundo Fabíola), ajudam em pequenos serviços, cooperam com as atividades do local, não ficam vagando pelas ruas. Ali estão sendo cuidados, estão de alguma forma protegidos.

Do lado de fora, uma multidão de usuários se concentrava: parte deles aguardava em frente ao portão, na expectativa de uma das disputadas vagas para o pernoite, enquanto a outra parte, bem maior, aguardava o fim da limpeza da rua ao lado, onde logo mais voltariam a instalar o “Fluxo”, local onde o consumo e o comércio do crack e outras drogas acontece de forma concentrada e livre. Tudo cercado por intenso policiamento, inclusive através de um drone que a tudo e a todos “vigiava”.

No novo “apê” de Fabíola, soubemos que falta uma geladeira e uma TV. Além de cobertor, roupa de cama, travesseiro. Mas ela não dá demasiada importância a isso, “estou feliz com minha nova vida”. Ao final de nossa conversa, ela tem uma ideia: “Será que você não poderia pedir ajuda pros seus amigos da internet, pra tentar conseguir pelo menos uma geladeirinha velhinha pra mim? Pode tirar minha foto, pode publicar minha história, pode fazer o que você quiser, minha vida é um livro aberto e eu não tenho nada a esconder”. Na verdade, depois ela brinca, ela só tem a esconder o sorriso, pois lhe falta um dente.

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Prometi tentar “uma vaquinha” para comprarmos uma geladeira de segunda mão lá mesmo onde ela mora, na Brasilândia. Assim evitamos os altos custos do frete. Se der, compraremos também uma pequena TV. Além disso, prometi divulgar que ela busca por uma oportunidade de trabalho como cozinheira ou ajudante de cozinha: ela tem experiência em restaurantes e já fez muitos cursos, até de cozinha vegetariana. Prometi que, a quem pedisse, eu enviaria o seu currículo.

Enquanto conversávamos, enquanto líamos o seu caderno, ficava lembrando do abraço que tínhamos dado ao nos reencontrarmos, quase um abraço de novela. Um abraço tão forte, tão cheio de emoção, de alegria, de carinho, de energia, que imediatamente me fez sentir que todo o esforço de atravessar a cidade para ir até a Cracolândia naquela tarde fria tinha valido a pena. Mais que isso, senti que todo o trabalho feito para tentar ajudar, ainda que de maneira mínima e inconstante, aqueles que parecem não ter saída, é um trabalho que precisa ser continuado.

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