Quase voar

Fui bombardeada. Uma saraivada de palavras me atingiu bem no meio do peito.

De que adianta vocês ficarem ai conversando, se aqui ao lado tem duas meninas morrendo? Uma de 16, uma de 17, lindas! Aquelas ali, ó. (Wilma aponta para a “Cracolândia da Sé”, a uns 20 ou 30 metros de onde estávamos). Sim, aquelas ali mesmo, se afundando no crack, os homens tudo usando elas, um horror, um inferno, elas vão morrer ali. E o que vocês vão fazer por elas? O que VOCÊ vai fazer? Ah, você não pode fazer nada, né? Não pode ir ali, né? Eu não aconselho mesmo, agora não dá pra entrar ali, mas o que você vai fazer? Vai deixar elas morrendo? São meninas! Você não entende? Me-ni-nas! Você tem que tirar elas dali, tem que internar elas!!! Sim, as assistentes sociais já vieram, e não fizeram nada. Os políticos já vieram, e não fizeram nada. Nunca fazem nada. Ninguém faz nada. Você não tem pra onde levar elas, né? Ninguém tem! Esse é o problema de vocês! Vocês conversam, conversam, conversam, e não fazem nada! Querem cuidar da mente, mas tá errado! Tem que cuidar antes do corpo, elas estão morrendo. Morrendo! Deixa a mente pra depois! Querem saber a história, por que saiu de casa, por que isso e aquilo, mas que importa isso agora, meu Deus? Tem que salvar elas! Que nem essa aí (aponta para a mulher sentada na mureta à nossa frente, com olhos muito amarelos, ela toda muito amarela, tentando sem sucesso calçar um tênis sujo em um pé inchado e cheio de feridas). Tá com os rins estragados, o fígado já era, e está com tuberculose. Vai morrer. Vai morrer logo! Mais uma. Mais uma, meu Deus! Se matou com a bebida. E o que você vai fazer? O que você vai fazer por todas as mulheres daqui? Não há lugar pra nós, me dói ver o sofrimento de todas essas mulheres, me dói demais. Eu não aguento isso, me dói!!! Quarenta anos na rua, tudo o que aprendi foi na rua. Tudo o que sei, foi aqui que aprendi. Cada coisa que eu vi, cada coisa! E hoje durmo na calçada, porque não tem vaga pra mim. Não tem vaga pra mulher. Durmo aqui, durmo ali. Durmo por aí. Você pensa que eu gosto? Não gosto não. Mas não tenho pra onde ir. De noite, aquela ali, aquela que vocês levaram agora há pouco, ela apanhou daquele macho. Ah, então você já sabe, ela te contou. Mas não foi só um tapa não, ele deu murro nela, bem aqui, ó. Deu muito murro nela. Ele maltrata muito ela. Mas ela é doente, meu Deus! Ela toma remédios, você sabe disso? Ela é doente da cabeça, não pode! E ninguém faz nada por ela! Você sabe como dói, você no meio da noite tentando dormir, ouvindo ali do seu lado ela tomando paulada, e você não pode fazer nada? Dói demais! Não dá pra dormir assim. E o que você vai fazer por ela? Por nós? Por todas as mulheres? Nada, né? Nada. Vocês são assim, não fazem nada. Olha ali as meninas, eu não suporto ver isso, você tem que fazer alguma coisa!!! Tão novinhas! Meu Deus, tão novinhas.

Wilma é uma mulher forte. Fortíssima. Inteligente, articulada, ousada. Quarenta anos de rua não fizeram com que seu coração endurecesse. Wilma é uma mulher sensível.

Então tá bom, quarta-feira vocês voltam. Quarta-feira! As coisas não são assim, não! Não pode ser só na quarta-feira! Tem que ser todo dia, tem que ser toda hora, tem que ser vinte e quatro horas! As mulheres estão sofrendo, as mulheres estão morrendo por aqui, e vocês voltam só na quarta-feira?!? Abram os olhos, vejam, olhem à sua volta, olhem o que está acontecendo com essas mulheres! Façam alguma coisa!!!

Wilma estava sofrendo demais.

Por impulso, eu a abracei. Nem sei se ela queria um abraço, mas eu com certeza precisava de um. Agradeci sua força, seu cuidado e amor por todas as outras mulheres. Agradeci suas palavras, duras. Não tentei me justificar. Não havia justificativa. Ela tinha razão. Tudo o que eu dissesse seria pequeno. Havia mulheres sofrendo, sim, havia mulheres morrendo, sim. Mulheres, muitas, cercadas de violência e descaso. Tudo o que tentássemos fazer seria pequeno. Tudo o que fazíamos era pequeno. E a pequenez que fazíamos era ir ali, às quartas-feiras, conversar. E escutar. Só isso.

Wilma aceitou o abraço. Seu corpinho magro se entregou. Tão forte, tão frágil. Entregue ao abraço, ela se aquietou. Depois, perguntou se voltaríamos mesmo na quarta. Ela queria conversar mais.

Então, esboçando um sorriso, talvez o primeiro por dias, balançou os braços pelo ar, como quem bate asas e vai voar. Olha só, estou mais leve! Estou muito mais leve! Falei um monte, meu Deus, como falei! E não é que estou me sentindo melhor, muito mais leve? Acho que vou até voar.

Voar.

Dispensei as escadas rolantes, desci as escadarias a pé. Eu precisava de tempo. Ou talvez eu precisasse de espaço. O vagão que entrei estava lotado. As mulheres ali viajavam em silêncio, mas a voz de Wilma ainda me falava. Naquele mesmo instante, havia muitas mulheres sofrendo, havia muitas mulheres morrendo. Morrendo de crack, de bebida, de paulada. Morrendo de tanto sofrer.

Um sofrimento sem tamanho, que conversa nenhuma consegue pôr fim. No máximo, talvez uma conversa possa deixar alguém um pouco mais leve, até quase poder voar. Quase voar. Só quase.

É muito pouco.

passarinho

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