A arte da escutatória

Chovia, e assim como grande parte das pessoas que passam o dia – e a noite – na Praça da Sé, buscamos abrigo no metrô. Longe das catracas, homens e mulheres úmidos, recostados em trouxas formadas por pertences recolhidos às pressas, esparramavam-se pelo chão.

Demos um oi aqui, outro ali, trocamos apertos de mão.
– Vocês vão nos levar pra onde?
– Pra nenhum lugar.
– Então vocês não têm uma casa de internação pra nos levar?
– Não, não temos.
– Nenhum abrigo?
– Não.
– Eu não queria ficar aqui, estou cansado dessa vida. Dona, a senhora não tem mesmo um lugar pra mim?
– Não, não tenho. Infelizmente não tenho nenhum lugar para te levar.

Sentir-se impotente é incômodo. Dá vontade de fugir. Já fugi outras vezes, e aprendi que a impotência é mais esperta: quanto mais você tenta se livrar dela, mais ela cola em você. Então não me movi.

De um lado, pessoas passavam apressadas para seus destinos; de outro, pessoas sem destino pareciam não ter pressa alguma. Algumas, inclusive, se embebedavam de cachaça.
– Quer um gole, tia?
– Não, obrigada, isso não me faz bem.
Sem tomar nenhum gole, embriaguei-me com o gosto amargo dos meus nãos. Deixei que o amargor me encharcasse, até evaporar. Instantes depois, mais sóbria, falei:
– Pensando bem, na verdade, tenho sim um lugar para levar vocês. Tenho o meu coração. Serve?

Foi assim que aquela tarde desanimada e chuvosa começou a se transformar numa tarde delicada, calorosa, gentil.
– No seu coração? Sério mesmo? Eu quero! Acho bem melhor que internação!!!
– Cabe eu também?
– E eu, tia, cabe eu?
– E até eu?

Quantos desabrigados será que um coração pode acolher? Nas ruas, essa questão toma forma. E cheiro. Será possível acolher homens com bafo de cachaça, impregnados de fumaça de cigarro barato? Viciados, abandonados, desesperados? E mulheres molhadas de urina? Doentes, com suas feridas expostas, infeccionadas? Será possível a um coração – ainda que seja um coração grande – ceder acolhida a pessoas que já mataram outras? (“mas era ou eles ou eu, tia!”)

À medida que íamos ouvindo suas histórias, ficava claro que um único coração pode acolher o infinito. E também ficava claro que tantas histórias não cabiam em uma única tarde. Todos queriam – precisavam! – falar.

Não tínhamos lugar para levá-los, mas tínhamos um par de horas para escutá-los.

José Antonio, mais conhecido como Badarosca, chegou filosofando. Contou que, por dia, muita gente se aproximava deles, cada qual com sua oratória, tentando convertê-los a uma religião, a um modo de vida, a um modelo, a um padrão.
– De oratória estamos cheios. De gente dizendo o que devemos fazer, e como devemos ser, estamos cansados. Mas o que precisamos é de escutatória. Alguém interessado em nos ouvir, interessado em nossa história. Que não queira falar de si mesmo, que não queira nos impor suas ideias. Alguém que faça escutatória da mais pura, e mais nada. Para mim, a escutatória é uma arte. E vocês fazem essa arte.

Achei o termo escutatória brilhante. Pensei mesmo que ele o tivesse inventado naquele instante. E talvez o tenha! Mais tarde, pesquisando no Google, descobri que Rubem Alves tem um lindo texto que leva esse título. Criativo que era, deve tê-lo inventado. Mas, com todo o respeito, para mim o verdadeiro inventor da escutatória é, e sempre será, José Antonio Pereira, o Badarosca.

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“Escutatória é arte de poder ouvir, ouvir as pessoas desconhecidas, ouvir e não dar receita pronta, apenas ouvir. Oratória todo mundo quer ter. Eu queria que os oradores parassem de falar e escutassem. Simplesmente só escutar. Entre falar e escutar eu fico com escutar.” José Antonio Pereira

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