Fran

“Se meu almoço for água, não me importo. Mas o da minha filhinha, não dá! Ela não aguenta ficar muito tempo sem comer.” Fran tem uma voz firme, não faz drama do drama que está vivendo.

Seu marido trabalha, carteira assinada, mas a firma há meses só paga um terço do seu salário. Com 500 reais no bolso e tendo que pagar 300 de aluguel num barraco simples em uma favela, é claro que não há o suficiente para a família. Se não fosse o almoço na creche para sua filhinha de 4 anos, se não fosse o leite materno para seu bebê de 2 meses, e se não fosse a vizinha dividindo o arroz e o feijão que para ela mesma muitas vezes falta, seu drama seria infinitamente maior.

O marido de Fran foi na empresa implorar para que lhe pagassem o salário integral. Voltou abatido, as lágrimas escorrendo desesperança. Fran tentou animá-lo, se precisasse ela mesma iria trabalhar, deixaria o bebê com uma senhora que fica com crianças lá na favela. “Ninguém vai cuidar dele que nem eu, ele ainda está mamando. Mas se não der jeito, eu vou. Não posso ficar parada”. Apenas a consideração desta hipótese já a faz chorar.

Como mãe, sei o quanto é difícil essa decisão, ainda mais porque não estamos falando em deixar o filhinho num berçário com toda a estrutura que ele necessita. Estamos falando em tirar dele a melhor alimentação do mundo, o leite materno, para dar-lhe um leite de caixinha. Quando – e se – tiver leite de caixinha pra dar. Fran sabe que não é o melhor para ele, mas sabe também que a família precisa de algum dinheiro para sobreviver.

Muita gente ainda pensa – e declara – que na favela só tem preguiçoso. Viciado e preguiçoso. Que se a pessoa quiser mesmo, ela trabalha e se vira e “sobe na vida”. E que se fica “botando filho no mundo” sem ter condições pra criar, que aguente as consequências.

É fácil julgar à distância. Difícil é ir lá conhecer a realidade de perto. Difícil, mesmo, é compartilhar uma pequena parte das próprias condições privilegiadas, ou até mesmo do próprio tempo, com os menos privilegiados, tentando ajudá-los a, quem sabe, encontrar melhores condições para “subir na vida”.

2016-11-30-17-32-01

Anúncios
Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Fotografia e voluntariado

por Lori Paula.

Lembro-me quando era pequeno de um fotógrafo de bairro que uma ou duas vezes por ano minha mãe contratava pra tirar fotos minhas. Era uma alegria quando chegavam as fotos daquele tio bonachão. Fazia-se ali o registro da minha infância, momentos que minha mãe guarda até hoje com carinho e que não permite que ninguém tire de sua casa.

Sempre gostei de fotografia, sempre achei o máximo e sempre estive de alguma forma envolvido com ela. Agora, depois de bem adulto (ou quase, rs) decidi abraçar de vez me aventurando aqui e ali, o que me trouxe muitas oportunidades lindas de ver a vida com outros olhos, por uma nova perspectiva.

Um desses presentes foi a oportunidade de fazer registros de lugares e pessoas que as vezes passam “despercebidas” pela sociedade, que todos preferem meio que “fechar os olhos” pra sua existência, mas que na verdade vivem muito mais próximas do que imaginamos, com suas fragilidades e, sobretudo, com sua força e sua garra pra tocarem suas vidas da melhor forma possível.

Realidade é um tema que sempre me interessou muito e é impressionante a quantidade de “realidades” que se passam pela vida das pessoas e o quão mutáveis elas podem ser. Ter a possibilidade de fotografar as diferentes realidades a que as pessoas são expostas em seu dia a dia pra mim hoje em dia é um grande presente que me traz uma grande reflexão sobre a minha própria vida e sobre as muitas realidades que vivi e que ainda hei de viver.

Convido a todos a fazerem o mesmo. Um dia de trabalho voluntário pode trazer muito mais reflexão sobre a sua própria vida do que talvez anos de terapia.

foto-04

foto-03

foto-05

 

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Não estava nos meus planos

(Texto originalmente publicado em 02/04/2014, em Conexão Bodisatva).

Morador de rua era algo que, honestamente, não estava nos meus planos. Até que, por impulso, me juntei ao grupo de amigos que estava saindo para passar a noite de 31 de dezembro no Minhocão. “Vamos?”, arrisquei meio sem jeito pro meu marido. Largando nossos planos cheios de luzes, como quem larga uma roupa suja no chão, ele topou.

Quando me dei conta, estávamos no meio de uma festa debaixo do Minhocão, eu passeando por entre moradores de rua com uma garrafa de guaraná nas mãos, enchendo seus copos, dando uns olás aqui, trocando umas palavrinhas ali… Foi uma festa animada.

Aos poucos nossos amigos foram indo embora, e como acontece em quase todo fim de festa “normal”, sobraram os anfitriões e alguns poucos convidados, embalados e envolvidos em algum bom papo… Foi assim que ficamos mais um bom tempo ali, alguns dos moradores, a Soninha, o Fabio e eu.

Sem a euforia da festa, as conversas fluíram mais. Conversei com um, e depois com outro. Não me lembro de seus nomes, pouco me lembro de seus rostos (infelizmente sou uma lástima nisso!), mas me lembro bem dos seus olhares, de suas expressões, do tom de suas vozes…

Talvez as palavras não tenham sido exatamente essas, mas foi isso o que me disseram:
Sabe, muita gente passa aqui, quase todo dia tem gente vindo, ainda mais nessa época do ano… A gente ganha roupas, comida, presentes, a gente ganha muita coisa, não nos falta muito… Param carrões, descem em grupos, mulheres bonitas, cabelos assim, ó, sapatos chiques, homens felizes, abrem as portas, um fica na direção enquanto os outros rapidinho descarregam caixas, sacolas, comida, muita comida, deixam tudo aqui na calçada e então param ao nosso lado, se arrumam, colocam o braço no nosso ombro, tiram uma foto… e se vão. Acho que eles mostram essas fotos depois para os amigos, pra contar o que fizeram, né?… Mas ficar, assim, com tempo… ficar assim, ninguém fica, não… Ficar por ficar, só ficar… assim junto… como agora… isso não acontece, não. Nunca.

Falou sem rancor, sem raiva, sem nada. Fez apenas uma constatação. Seca. Doída. Cortante e fria como uma navalha.

A pergunta pra mim veio meio que à queima-roupa:
– Por que você veio hoje aqui, nesse lugar sujo, feio, fedido, com tanta festa rica e bonita por aí?

Fiquei um tempo em silêncio, buscando uma resposta honesta.
Ah, porque hoje é um dia especial, um dia que todo mundo gosta de celebrar… Vem aí mais um ano novo… E como todo ano novo, todo novo dia, a gente tem uma nova chance pra decidir mudar alguma coisa que não tá boa, pra gente chegar mais perto do que acha importante… e largar o que não nos ajuda muito, largar o que não é bom pra nós, nem pros outros… E pra alcançar isso, a cada novo dia a gente tem que se levantar decidido a enfrentar as pedras que aparecem no nosso caminho, com paciência, coragem, determinação… uma pedra depois da outra… Uma vidas têm mais pedras, outras menos… Talvez a sua tenha muitas… tudo bem. Mas enquanto estivermos vivos, teremos sempre uma nova chance, e essa chance é muito preciosa. Então, como gosto de celebrar isso, e quis aproveitar a minha chance, vim aqui com meus amigos, porque achamos que vocês também gostariam de celebrar isso com a gente.

 A conversa não parou aí.
Mas você acha que eu também posso isso, posso ter esse negócio de chance?
Acho. Acho sim. Você é humano que nem eu, que nem todo mundo aqui, que nem todas as pessoas que existem no mundo! O que a gente vê por fora é diferente em um, em outro. Uns têm roupas chiques, outros roupas simples, uns são de uma cor, outros de outra, uns moram em casas chiques, outros moram na rua. Mas somos todos humanos. E como todo humano pode, você também pode.
– Mesmo?
– Mesmo.

Ficamos um tempo em silêncio… eu olhando pra ele, ele pro além…
É… eu poderia ser melhor… largar umas coisas que são bem ruins… poderia falar com minha família, sinto tanta falta deles… tem muitos anos já… telefono lá, eu sei o número na minha cabeça, mas quando escuto a voz deles eu desligo… eu choro, não aguento!… Eu estou aqui agora, faz tanto tempo… eu poderia mesmo… você tá dizendo que eu posso?… Eu posso… é… eu posso… mas como eu faço pra não esquecer disso?… Será que amanhã quando eu acordar, eu já não me esqueci que eu posso?!? Ou na semana que vem?… Tenho medo de esquecer.

No caminho de volta pra casa, os fogos estouravam no céu. No carro, entre um silêncio e outro, conversávamos sobre a festa, os moradores, as luzes no céu, o inusitado de nossa experiência. Ao fundo, como uma música triste, uma coisa me martelava: Quantos, naquele momento, naquele exato momento, nem ao menos podiam perceber a beleza das luzes que iluminavam de forma tão linda o céu? Quantos, naquele exato momento, não estariam se sentindo sós, abandonados, sem saída? Quantos não estariam com medo de se esquecer de que são humanos… ou até mesmo já teriam se esquecido?

Já nas primeiras horas do ano, moradores de rua começavam a fazer parte dos meus planos.

Luciana Damasio

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Cobertor dos bons

Na Praça da Sé, o assunto ontem era o frio. A noite anterior já havia sido difícil, mas a que estava por chegar prometia ser pior.

Não demorou muito para que os pedidos começassem a jorrar: “Me arruma uma calça 38?”; “Eu queria um moletom”; “Eu queria uma blusa grossa, só estou com essa aqui”; “Eu queria um chinelo 42, não aguento mais esse tênis fedorento”; “Eu queria um cobertor”. Na verdade, vários queriam um cobertor.

cobertores-coloridos.jpg

Dava uma certa agonia não ter nada para lhes dar, ali naquela hora. Falamos que iríamos arrecadar e levar o quanto antes, mas para aquela noite não daria tempo. Pensando que a coisa toda era mais simples do que na verdade era, eu lhes disse: “Tenho quase certeza de que com o frio que foi anunciado, logo aparecerão ONGs, igrejas, grupos de pessoas do bem trazendo roupas e cobertores para vocês.” De fato, eu mesma não havia levado agasalhos, pensando que sobrariam doações. Achei que não seria necessário eu ficar carregando uma mochila pesada.

William me corrigiu: “Não é bem assim, Tempestade (apelido que ele me deu). Com certeza eles virão, mas você pensa que é fácil conseguir um cobertor? Amontoa um monte de gente, fica uma confusão, dá briga, e o problema é que descem as pessoas das ocupações trazendo suas crianças, aí já era, eles têm prioridade, eles ganham tudo e a gente não. Não é que eles também não precisem, mas é que a gente também sente frio, só que fica sem nada.”

Eu juro que não imaginava que era tão difícil assim. Ah, se arrependimento matasse… Eu devia ter levado a mochila cheia, eu tinha um monte de agasalhos em casa. Fiquei ainda mais agoniada.

Júnior, um homem vestindo bermudas, uma blusa fina e chinelos, falou meio sentido: “Ontem peguei essa blusa. Quando fui tentar pegar um cobertor, sabe o que a mulher que tava distribuindo falou? ‘Você tem os olhos maior que a cara, é???’ Fiquei triste. Eu só tava querendo um cobertor pra me enrolar de noite! Só isso!”

Eles contaram que no frio todo mundo se acotovela para conseguir um espaço na caixa preta. Caixa preta é o prédio da Caixa Econômica Federal, ali pertinho, que tem uma grande área coberta. Fica lotada. William avisou: “Hoje quando for sete, sete e quinze, já vou pra lá pra garantir o meu espaço.”

Prometemos levar o que conseguíssemos, o quanto antes. Quando fui me despedir dele, dando-lhe um abraço, ele me segurou por um instante e falou bem baixinho ao meu ouvido: “Vê se me arranja um cobertor dos bons, grossos, daqueles que esquentam. Desses aqui não adianta muito”. Sorri, prometendo tentar. Ele sorriu de volta e piscou um olho, como que se nós dois agora fôssemos cúmplices do seu “crime”, que foi o de contrariar a regra do “cavalo dado não se olha os dentes” e pedir um produto de qualidade, capaz de lhe proteger do frio.

Publicado em Sem categoria | Marcado com , , , , , | Deixe um comentário

De quem é o fracasso?

Carol tem 11 anos. Sua casa está praticamente apoiada em um córrego e possui trincas e rachaduras comparáveis ao Grand Canyon. Sua geladeira está quebrada, servindo apenas como armário. Os ratos circulam livremente pela casa, mesmo com sua mãe se preocupando em manter tudo bem limpo. O banho é de balde, o vaso sanitário alimenta o córrego. Comida, quase sempre tem. Quase sempre.

Carol é uma menina bonita, alegre, comunicativa.  Sonha em ser atriz.

Carol passou para o 5º ano de uma escola municipal em Cotia. Ela já tem o material, já tem a mochila, já tem os livros. Mas há um “detalhe” que lhe falta: ela ainda não sabe ler nem escrever.

A mãe de Carol, no final do ano passado, foi à escola implorar para que a menina não fosse aprovada. Ela não sabia nada, de que adiantaria seguir em frente? Mas a escola alegou que não podia repeti-la. Aliás, não podiam repetir ninguém. Carol teria que passar para o 5º ano, sabendo alguma coisa ou não.

As aulas começaram, e semana passada a mãe de Carol voltou à escola. A professora tem muito boa vontade, é boazinha, mas explica que não pode fazer muita coisa: são 37 alunos em sala, e ela não tem condições de dar atenção exclusiva para a Carol, ao menos não o tempo todo. Bem que gostaria, mas não consegue. Ainda assim, de vez em quando, sempre que dá, ela se senta ao lado da menina para correrem juntas atrás do aprendizado que nunca aconteceu. Mas parece sentir que correm uma maratona perdida, já que Carol está demais de atrasada em comparação a sua turma. Para a mãe, a professora desabafa: “Por mim, ela devia ter repetido. Seria melhor para mim, e seria muito melhor para ela. Mas não pode. A gente não tem autorização para repetir ninguém. Tem de passar todo mundo de ano.”

Carol, por sua vez, acha meio chato ir à escola. Como é mesmo que ela poderia achar interessante, se ela não tem condições de entender o que está acontecendo, se não consegue ler o que está na lousa ou nos livros, se não tem as competências necessárias para fazer as tarefas ou as lições? Como, se perante os colegas de classe, ela se sente uma fracassada, para não usarmos a palavra ‘burra’?

Carol me mostra o seu caderno, ainda novinho. As primeiras páginas já estão todas escritas a lápis. Ela fez cópias do livro e da lousa. Está bem caprichado, é verdade. Mas ela não faz a menor ideia do que ela própria escreveu lá. Não consegue ler as palavras, nem mesmo as primeiras sílabas. Sua mãe explica: “Ela não escreveu aquilo. Ela desenhou. Só copiou as linhas, as formas. É um absurdo isso.”

Sua mãe está inconformada. “Como podem passar a menina pra frente assim? O que vai ser dela no ano que vem? Então ela vai passar pro 6º, sem saber absolutamente nada??? Depois vai pro 7º… Até que série ela vai assim? E, pra piorar, ela nem gosta de fazer lição! Carol, você tem que se esforçar!!!”

Carol sorri amarelo. Não sabe nem o que dizer.

“Carol, você quer mesmo ser atriz?”, pergunto, já com “um plano” em mente.
“Quero!” Seu rostinho se ilumina.
“Então, acho que você vai precisar ler as falas das atrizes… Pra poder decorar, e depois repetir no teatro e na televisão! Uma atriz tem que ler e decorar os textos! Se você for uma princesa, tem que ler o que a princesa vai falar pro príncipe, tem que saber as palavras que ela vai usar… ‘Meu Príncipe Amado, meu amor, vamos juntos para o nosso lindo castelo?’ Pra isso, você vai precisar aprender a ler! Vamos aprender?”

Carol fica toda animada, provavelmente já se imaginando nos palcos, com seu longo vestido de cetim. Ela quer aprender, está claro. Mas também está claro que ela quer aprender algo que esteja de acordo com o seu nível atual, de um jeito que ela consiga entender, de uma maneira que ela possa acompanhar, e que possa progredir.

No seu caderno, encontrei escrito ‘BA – BE – BI – BO – BU’. Foi a professora que escreveu num dos momentos em que se sentou ao seu lado, enquanto os outros faziam a lição do dia. Com dificuldade, Carol conseguiu reconhecer que ‘B’ junto com ‘O’ dava ‘BO’, que ‘B’ junto com ‘A’ dava ‘BA’. Mas quando a gente tentava juntar os dois, ela saía atirando para todos os lados: “BO-lacha? BO-la? BO-nita?”

Não dei muita bola, continuamos brincando com as letras. Juntando as sílabas, formando palavras. No começo foi difícil, mas depois de um tempo ela já estava entendendo o “truque”: quando via escrito ‘BOBO’, mas arriscava um ‘BONECA’, a gente achava juntas onde estava o primeiro ‘BO’. Mas e o ‘NECA, onde estava? Deveria estar aqui… Mas no lugar, o que é que tinha? Um outro ‘BO’, igualzinho ao primeiro!!! Daí, pra chegar no ‘BOBO’, era um pulo. Só que ela conseguia ler “BOBO”, mais ainda não conseguia ligar o som a algum significado. Ainda era um som “vazio”. Então eu dava um “empurrãozinho”: “Do que você chama seu irmãozinho, quando ele te enche muito? Seu…?” Num instante ela matava a charada: “Bobo! É bobo que está escrito aí!”

Do fracasso à vitória, um salto feliz.

Assim fizemos com ‘BOBA’, ‘BABA’, ‘BEBE’, ‘BEBO’. E, no fim, um desafio: “Faz de conta que a sua mãe deixou você ter uma cachorrinha. O nome dela está escrito aqui. Agora é você que vai ter que me dizer qual é o nome dela.”
Ela foi tentando: “BI… BI… BI… BA… BA… BA… BI-BA… BIBA. É Biba!” Carol ficou tão feliz! Mas, simulando uma grande tristeza, choramingou: “Impossível isso, a minha mãe não gosta de cachorro…” Quase vi lágrimas. Rimos da sua encenação. Carol pode mesmo se tornar uma ótima atriz!

“Carol, se eu conseguir algum amigo meu, ou uma amiga, alguém que seja bem legal, e que possa vir aqui na sua casa todas as semanas pra brincar de letras e palavras com você, você topa? Você quer?” Antes que ela respondesse, sua mãe a alertou: “Mas não vai poder ficar enrolando que não quer sair da cama. Se vier alguém mesmo aqui te ajudar, vai ter que estar pronta e de banho tomado. A pessoa já vai fazer um grande sacrifício em vir até aqui, você não vai poder ficar fazendo ela perder o tempo dela. Pensa bem! Você quer mesmo?”

Carol pensou… pensou… pensou… e tomou uma decisão: “Eu quero!”

Que ótimo, o principal nós já temos! Agora só falta arranjar essa pessoa. Enquanto não arranjo, vou eu mesma quebrando o galho, para que a Carol descubra o quanto antes que o fracasso não é dela.

 

 

 

 

 

 

 

Publicado em Sem categoria | Marcado com , , , , , , | 1 Comentário

Remédio, um luxo

A pergunta foi a de sempre, mas a resposta não foi a usual: “Não, Lu, infelizmente não está tudo bem. O Beto está sem remédio desde o dia 16. Tá em falta na farmácia do hospital”.

Beto, um amor de menino, depende de medicamentos controlados praticamente desde que nasceu. Sua mãe, extremamente dedicada e responsável, sai todos os meses de Cotia e vai ao Hospital das Clínicas para retirar os comprimidos necessários para aquele mês. Como ela costuma dizer, ir à farmácia do HC é o compromisso mais importante da sua vida: tem de estar lá no dia e na hora exatos, chova ou faça sol, pois sem os medicamentos o garoto tem dores de cabeça terríveis, seguidas de fortes convulsões. Recentemente, inclusive, ele esteve internado por vários dias devido a algumas complicações.

Ocorre que, no último dia 16, Rose foi à farmácia do HC e… dois dos três medicamentos necessários estavam em falta. Em quase 13 anos, foi a primeira vez que isso aconteceu.
Voltou lá no dia 24, mas eles continuavam em falta.
Beto, já se queixando de dores de cabeça, começou a faltar à escola.
Rose retornou ao hospital no dia 1º de março, mas os medicamentos ainda faltavam. “Não há previsão de chegada”, repetiam os funcionários a todos os que também eram surpreendidos pelas prateleiras vazias.
O menino, àquela altura, já se queixava de fortes dores de cabeça. Sua mãe, conhecendo bem a evolução dos seus sintomas, já sabia que as convulsões estavam muito próximas. Ela precisava urgentemente conseguir seus remédios.

Rose tem uma renda bastante modesta, toda comprometida com a alimentação e os cuidados básicos dos 4 filhos. Eles vivem em uma humilde casinha de madeira e ela não tem como se dar ao luxo de pagar passagens de ônibus para ir muitas vezes por mês à farmácia do hospital. Também não tem como se dar ao luxo de gastar mais de 200 reais em remédios, todos os meses. E Beto, nosso querido Beto, não tem como se dar ao luxo de ficar sem os medicamentos de que depende. Simplesmente porque não é uma escolha dele tomar tanto remédio, é uma necessidade.

O “luxo” mensal de Beto consiste em 3 caixas de Depakene, a 57 reais cada, e 6 caixas de Clobazam, a 13 reais cada (algumas farmácias dão algum desconto sobre esse valor). Há ainda um outro medicamento, a Risperidona, que Beto toma diariamente mas que, ao menos até este mês, ainda estava disponível no estoque da farmácia do hospital. Felizmente, ou mais 100 reais seriam necessários.

Na mesma noite do telefonema, levei até Rose o dinheiro para que, já no dia seguinte, ela pudesse voltar ao HC para tentar conseguir as receitas com a neurologista que acompanha o Beto. Não era mais possível ficar esperando, era preciso comprar os remédios. Ainda estava escuro quando mãe e filho, na manhã do dia 2, mais uma vez embarcaram no ônibus para São Paulo.

Na volta para casa, já com com os preciosos papeizinhos azuis em mãos, eles precisaram parar de farmácia em farmácia pois o Clobazam estava difícil de encontrar. Finalmente um dos estabelecimentos informou que dispunha de 3 caixas, porém já estavam todas reservadas para um senhor. Beto, não suportando mais um fracasso, começou a chorar. Estava cansado, sua cabeça doía muito. A farmacêutica, vendo o menino bastante pálido e já com os olhos revirando, sensibilizou-se com o seu sofrimento e com a agonia da mãe e decidiu retirar as caixas da reserva, vendendo-as imediatamente. Disse a Rose que não se preocupasse, pois o senhor que as havia encomendado era um cliente habitual que ela já conhecia bem, e com certeza ele poderia esperar mais alguns dias.

Assim, Rose pode comprar as 3 caixas que havia em estoque, e as outras 3 necessárias já ficaram pagas, para retirada posterior. Só pode levar 2 caixas do Depakene porque o dinheiro que ela tinha em mãos não era suficiente para a terceira caixa.

2016-03-04 15.28.162016-03-04 15.41.37

Graças ao bom coração da farmacêutica e a sua própria perseverança, Rose conseguiu garantir o “luxo” de Beto, ao menos para os próximos dias.

Não quero ser pessimista mas, pelo andar da carruagem no nosso sistema único de saúde e no nosso país, que a cada dia descobre mais um desvio milionário de recursos de áreas “supérfluas”, como educação e saúde, ao que tudo indica mês que vem a batalha da Rose vai ter de recomeçar. Mais 200 e tantos reais serão necessários, além de muito esforço e, principalmente, altíssimas doses de paciência.

Espero, de coração, estar redondamente enganada.

2016-01-26 17.57.27- CB José Roberto, Rose - Recanto - Hospital

Beto, o “valente bombeiro”, durante a última internação

 

2016-01-26 17.54.09- CB José Roberto, Rose - Recanto - Hospital

 

 

Publicado em Sem categoria | 2 Comentários

Facada #3: Não sou mulher disso

Encontrei Selma toda amuada, deitada sob a sombra do grande pé de amora, sua casa. Estranhei, já que normalmente ela tem tanta vitalidade e nos recebe sempre com muita alegria.

“Ela levou uma facada”, adiantou-se Orlando, seu filho. “Por isso a Mãe tá assim, toda triste, mas nós estamos cuidando bem dela”.

Sentamo-nos ao seu redor. Selma estava ferida. Doía-lhe o peito, já costurado, mas doía-lhe algo mais. Em tom baixo, contou: “Eu fui ali pegar folhas pro Pai fazer mais flores, aí apareceu esse homem e passou a mão na minha perna, assim. Eu falei pra ele: Não sou disso! Sou mulher casada! Fui saindo pra chamar o meu marido, mas não deu tempo: ele já veio com a faca pra cima de mim e me acertou.”

Selma mostrou-me o pequeno corte sob a blusa, costurado com linha escura. “Não é porque durmo na rua que podem me tratar assim. Não sou mulher disso, eles pensam que só porque vivo aqui podem me usar, mas não podem. Eles não respeitam a gente, eles não respeitam mulher. Sou casada!”

Contaram-me que o agressor estava hospitalizado, “ele não vai sair de lá tão cedo”.  Imaginando uma cena horrorosa, perguntei: “O que vocês fizeram com ele?”
Mas eles não haviam feito nada. “Não precisou. Todo mundo gosta da Mãe aqui na Praça, e nossos amigos rapidinho cuidaram dele. Nem deu tempo pra gente fazer nada. Logo depois a polícia já levou ele pro hospital.”

Violência sobre violência. Violência que tenta aplacar a dor da facada na dignidade, que dói ainda mais que a facada no peito. Tenta, mas não consegue. Violência não resolve.

Violência nunca resolve.

2016-01-20 IMG_1471- CB Selma, Carlos Eduardo, Orlando - Sé.jpg

Casa da Selma, sob o grande pé de amora.

captura-de-tela-2016-02-21-17-55-36.png

Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário